A Crente Interessada

    Dona Marcela Fonseca vivia os últimos instantes na Terra.

    Não obstante a gravidade do seu estado orgânico, a agonizante mantinha singular lucidez e dirigia-se à família, com voz comovedora:

    – A confiança em Deus não me abandonará... A Celeste Misericórdia nunca desatendeu minhas rogativas... O Mestre Divino estará comigo na transição dolorosa...

    Alguns parentes choravam, em tom discreto, buscando, em vão, reter as lágrimas, no amarguroso adeus.

    – Não chorem, meus amigos – consolava-os Dona Marcela – o Espírito de minha mãe, que tantas vezes há socorrido minhalma, há de estender-me os braços generosos!... Há mais de trinta dias, sofro neste leito pesado de tormentos físicos. Que representa a morte senão a desejada bênção para mim, que estou ansiosa de liberdade e de novos mundos?!... Se me for permitido, voltarei muito breve a confortá-los. Não esquecerei os companheiros em tarefas porvindouras. Creio que a morte não me oferecerá dilacerações, além da saudade natural, por motivo do afastamento... Sempre guardei minha crença em Deus, não só na qualidade de católica e protestante, como também no que se refere ao Espiritismo, que abracei tomada de sincera confiança... com o mesmo fervor de minha assistência às missas e cultos evangélicos, dei-me às nossas sessões esperando assim que nada me falte nos caminhos do Além... Devemos aguardar as esferas felizes, os mundos de repouso e redenção!...

    Os familiares presentes choravam comovidíssimos. 

    Dona Marcela calou-se. Depois de longos minutos de meditação, pediu fossem recitadas súplicas à Providência Divina, acompanhando-as em silêncio. Suor gelado banhava-lhe o corpo emagrecido e, pouco a pouco, perceberam os circunstantes que a agonizante exalava os últimos suspiros.

    Qual sucede na maioria dos casos, portas a dentro da sociedade comum, a câmara mortuária transformou-se imediatamente em zona de prantos angustiosos, onde os que não choravam se referiam em voz alta às virtudes da morta, e, em surdina, aos seus defeitos.

    A desencarnada, contudo, não mais permanecia no ambiente de velhos desentendimentos e reiteradas dissimulações.

    Sentira-se bafejada por sono caricioso e leve, após a crise orgânica destruidora. Branda sensação de repouso adormentara-lhe o coração. Sem poder, todavia, explicar quanto durara aquele estado de tranquilidade espiritual, Dona Marcela despertou num leito muito limpo, mas extremamente desguarnecido de conforto. A seu lado, uma velhinha carinhosa abraçava-a, chorando de júbilo, a exclamar:

    – Até que enfim, querida filha! Marcela, minha adorada Marcela, que saudades do teu convívio!...

    A filha correspondeu às manifestações afetivas, porém, depois de fixar detidamente a paisagem nova, não disfarçou o desapontamento que lhe dominava o espírito voluntarioso. Já não era a mesma criatura, que revelava tamanha humildade na agonia corporal. Estava agora sem o influxo das dores. Experimentava plena liberdade para respirar e mover-se. Não mais o suor incômodo, nem a martirizante dispnéia a lhe torturarem o organismo. Não mais a agonizante vencida, mas a Dona Marcela da estrada comum, atrabiliária, exigente, insatisfeita.

    Embora o impulso natural de prosseguir beijando a carinhosa mãezinha, não sopitou o orgulho ferido e perguntou:

    – Mamãe, explique-me. Por que permanece nesses trajes? Que significa esta choupana sem conforto? Que região de vida é esta, onde a vejo tão fortemente desamparada? Será crível que seja este o seu lugar? Não foi uma crente sincera, no curso das experiências terrestres?

    A velhinha, com o olhar sereno de quem não mais teme a verdade, acentuou resignada:

    – Estamos no mundo de nossas próprias criações mentais, minha filha. Segundo nossas reminiscências, fui católica fundamente arraigada aos meus velhos princípios; contudo, não podes negar minha antiga preocupação de descansar nos esforços alheios. Recordas como torturava os servidores de nossa casa? Lembras minha tirania no lar, nos serviços de teu pai, nos atas da igreja? Quando acordei aqui, meus sofrimentos foram ilimitados, pois minhas criações individuais eram péssimas. As feras da inquietação, do remorso e do egoísmo observavam-me de todos os lados. Foi quando, então, roguei a Deus me permitisse destruir os trabalhos imperfeitos, para reconstruir conscientemente de novo. E aqui me tens. Tudo pobre, humilde, desvalioso, mas para mim que já desacertei demasiadamente, ferindo o próximo e desprezando as coisas sagradas, esta choupana paupérrima é a bênção do Pai, no recomeço de santas experiências.

    A recém-desencarnada contemplou a escassez dos objetos de serviço, fixou a miserabilidade das peças expostas, arregalou os olhos e exclamou :

    – Meu Deus! quantas situações estranhas! Mamãe, sempre a julguei nas esferas felizes!...

    – Esses planos começam em nós mesmos – retrucou a genitora, com a tranquilidade da experiência vivida.

    Recordando as inúmeras manifestações religiosas a que emprestara o concurso de sua presença, a senhora Fonseca redarguiu:

    – Não me conformo com a miséria a que a senhora parece andar presentemente habituada. E o meu lugar próprio? Visitei milhares de vezes os templos de , no mundo. É impossível que esteja esquecida de nossos guias e benfeitores. Onde estão Bernardino e Conrado, os amorosos diretores espirituais de nossas reuniões? Preciso interpelá-los relativamente à minha situação.

    A velhinha bondosa sorriu e informou:

    – Ambos prosseguem na abençoada faina de orientar, distribuindo benefícios; mas, as reuniões continuam na esfera do Globo e nós nos achamos em círculo diferente. Que seria dos trabalhos terrestres, minha filha, se os servos de Deus abandonassem suas tarefas, apenas porque uma de nós fosse chamada a nova expressão de vida?

    Marcela entendeu o profundo alcance daquelas palavras e observou:

    – Qualquer outra autoridade espiritual pode servir-me. Necessito receber elucidações diretas, a respeito de minha atual posição.

    A velhinha carinhosa fixou na filha o olhar afetuoso e compadecido, explicando-lhe prudentemente:

    – Poderei conduzir-te à presença do generoso diretor da nossa comunidade espiritual. Da bondade dele, recebi permissão para buscar-te no mundo. Creio, pois, que a sabedoria de nosso benfeitor será bastante aos esclarecimentos desejáveis.

    Com efeito, na primeira oportunidade, foi Marcela conduzida por sua mãe à presença do venerável amigo.

    Recebeu-as o sábio, com espontâneo carinho, o que a Srª. Fonseca interpretou como subalternidade, sentindo-se livre de manifestar as mais acerbas reclamações, a lhe explodirem da alma revoltada. Após minuciosa e irritante exposição, concluía lamentando:

    – Como sabeis, minha crença foi invariável e sincera: Na igreja católica, no templo evangélico, como no grupo espiritual, fui assídua nas manifestações de e nunca alvitrei a devoção. Não me conformo, portanto, com este abandono a que me sinto votada.

    O orientador solicito, que ouvira pacientemente a relação verbal da interlocutora, acentuou a essa altura; 

    – Não se encontra, porém, desamparada. Autorizei sua mãe a buscá-la nas zonas inferiores, com o máximo de carinho.

    – Mas a própria situação de minha genitora, a meu ver, merece reparos especiais – clamou a Srª. Fonseca, intempestivamente.

    Sorriu o bondoso mentor ao verificar-lhe o nervo-sismo e explicou em seguida:

    – Já sei. Sente-se ferida no amor à personalidade. Entretanto, talvez esteja enganada.

    E, chamando um auxiliar, recomendou:

    – Traga as anotações de Marcela Fonseca.

    Daí a instantes, o portador reaparecia, sobraçando um livro de proporções enormes. Curiosa e inquieta, a visitante leu o título: – «Pensamentos, palavras e obras de Marcela Fonseca».

    – Quem escreveu esse volume? – perguntou aterrada.

    – Não sabe que este livro é de sua autoria? – perguntou o mentor tranquilamente – é um trabalho de substância mental, que sua alma grafou, em cada dia e cada noite da existência terrena, pensando, falando e agindo.

    A interessada não sabia disfarçar a surpresa; mas o orientador, abrindo as páginas, acrescentou: – Não posso ler todo o livro em sua companhia.

    Vejamos, porém, o resumo de suas atividades religiosas.

    Fixando a mão em determinada folha, o sábio esclareceu:

    – Conforme se vê, assistiu no mundo a seis mil e setecentas e cinco missas, a duas mil e quinhentas cerimônias do culto protestante e a sete mil e doze sessões espiritistas. No entanto, é curioso notar que seu coração nunca foi a esses lugares para agradecer a Deus ou desenvolver serviços de iluminação interior, ou fora do eu circulo individual. Seu único objetivo foi sempre pedir ou reiterar solicitações, esquecendo que o Pai colocara inúmeras possibilidades e tesouros no seu caminho. Recitando fórmulas, cantando hinos ou concentrando-se na editarão, somente houve um propósito em sua – o pedido. Mudou rotulagens, mas não transformou seu íntimo.

    Ante o assombro de Marcela, o sabia continuava, delicado:

    – É justo pedir; entretanto, é preciso igualmente saber receber as dádivas e distribuí-las. A própria Natureza oferece as mais profundas lições neste sentido. Deus dá sempre. A fonte recebe as águas e espalha os regatos cristalinos. A árvore alcança o benefício da seiva e produz flores e frutos. O mar detém a corrente dos rios e faz a nuvem que fecunda a terra. As montanhas guardam as rochas e estabelecem a segurança dos vales. Somente os homens costumam receber sem dar coisa alguma.

    Mas... – concluiu o sábio orientador – não disponho de tempo para prosseguir na leitura. Finda esta, restituirá o volume aos arquivos da casa.

    A Srª. Fonseca iniciou o serviço de recapitulação das próprias reminiscências e só terminou dai a cinco meses.

    Extremamente desapontada, restituiu o livro enorme e, após encorajadora advertência do magnânimo diretor espiritual, explicou-se humilhada:

    – Sempre fui sincera em minha crença.

    – Sim, minha filha, mas a crença fiel deve ser lição viva do espírito de serviço. Sua convicção é incontestável. Sua ficha, contudo, é a dos crentes interessados.

    Com enorme tristeza a lhe transparecer dos olhos, a recém-desencarnada começou a chorar. O dedicado mentor abraçou-a e disse paternalmente:

    – Renove suas esperanças. Seu pesar não é único.

    Existem coletividades numerosas nas suas condições. Além disso, há fichas muito piores que a sua, em matéria de religiosa, como, por exemplo, as dos simoníacos, mentirosos e investigadores sem consciência. Anime-se e continue confiando em Deus.

    Reconhecendo a própria indigência, Marcela recebeu o acolhimento pobre de sua mãe, como verdadeira bênção celestial.

    Todavia, a nota mais interessante foi a sua primeira visita ao círculo dos irmãos encarnados. Em plena sessão, contou a experiência comovedora e relacionou as surpresas que lhe haviam aguardado o coração no plano espiritual. Sua história era palpitante de realidade, mas todos os presentes lembraram a velha Dona Marcela Fonseca e concordaram, entre si, que a manifestação era de um Espírito mistificador.


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