Carta a um Amigo na Terra

    Caro companheiro.

    Você quer saber algo de sua verdadeira situação na Terra.

    Compreendo.

    Quando a pessoa entra nessa grande colônia de tratamento e cura, é convenientemente tratada.

    A memória deve funcionar na dose justa.

    É natural.

    A permanência aí poderá ser longa e, por isso mesmo, certas medidas se recomendam em favor dos beneficiários.

    Atende às instruções do internato e não se preocupe, em demasia, com os problemas que não lhe digam respeito.

    Não se prenda aos seus apetrechos de uso e nem acumule utilidades que deixará inevitavelmente, quando as autoridades observarem você no ponto de retorno.

    Se algum colega de vivência estima criar casos, esqueça isso. Não vale a pena incomodar-se .

    Ninguém ou quase ninguém passa por aí sem dificuldades por superar.

    Viva alegre, com a sua consciência tranqüila.

    Em se achando numa estância de refazimento, é aconselhável manter-se fiel à tarefa que a administração lhe confie.

    Procure ser útil, deixando o seu lugar tão melhorado quanto possível, para alguém que aí chegue depois.

    Quanto ao mais, considere você e os demais companheiros de convivência e necessidade simplesmente acampados, unidos numa instituição de tratamento oportuno e feliz.

    Aí você consegue dormir mais tempo, distrair-se na sua faixa temporária de esquecimento terapêutico, deliciar-se com excelente alimentação, compartilhar de vários jogos e ensaiar muita atividade nobre para o futuro.

    Aproveite.

    O ensejo é dos melhores.

    Descanse e reajuste as próprias forças porque o trabalho pra você só será serviço mesmo, quando você deixar o seu uniforme do instituto no vestiário da morte e puder regressar.


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