Privações do Corpo e Provações da Alma

    O homem, não raro, na horas difíceis, lança mão de recursos extremos e, por vezes, ilógicos, para diminuir o sofrimento próprio ou alheio, qual acontece nas provas desesperadoras, no sentido de suprimir agonias morais ou curar doenças insidiosas.

    Daí nasce o contrasenso dos ofícios religiosos remunerados de que se alastram antigos e piedosos enganos, como sejam: a recitação mecânica de fórmulas cabalísticas;

    os sacrifícios inúteis visando prioridade e concessões;
    as promessas exdrúxulas;
    os votos inoportunos;
    as penitências estranhas;
    os auto-castigos em que a vaidade leva o rótulo da ; os jejuns e as mortificações a expressarem suicídios parciais;
    o uso de amuletos;
    o apego a talismãs;
    o culto improdutivo do remorso sem qualquer esforço de corrigenda na restauração do caminho errado...

    Contudo, ao espírita cristão compete despojar-se de semelhantes conceitos acerca do Criador e da Criação, cristalizados na mente humana através de numerosas reencarnações.

    Para nós não mais existe a crença cega.

    Em razão disso, não mais nos acomodamos à idéia do milagre como sendo prerrogativa em favor de alguém sem merecimento qualquer.

    De igual modo, urge compreender os mecanismos das Leis Divinas, dispensando-se, ante os lances atormentados da existência terrestre, toda a atitude ilusória ou espetacular.

    Omissão não resolve.

    E em matéria de comportamento moral na renovação da vida, abstenção do serviço no bem de todos, é deserção vestida de alegações simplesmente acomodatícias, dentro da qual o crente não apenas foge das responsabilidades que lhe cabem, como também ainda exige presunçosamente que Deus se transforme em escravo de suas extravagâncias.

    Situa-nos a Doutrina Espírita diante de nós mesmos.

    Estamos espiritualmente hoje onde nos colocamos ontem.

    Respiraremos amanhã no lugar para onde nos dirigimos.

    Usemos a oração para compreender as nossas necessidades, solucionando-as à luz do trabalho sem o propósito de ilaquear os poderes divinos.

    A Lei é equânime, justa, insubornável.

    A criatura - gota igual às demais no oceano imenso da Humanidade Universal, - não é cliente de privilégios.

    Eis porque, ao invés de procurar, espontaneamente, penitências improdutivas para nós, é imperioso buscar voluntariamente o auxílio eficiente aos semelhantes.

    Espiritismo é sublime manancial de energia espiritual.

    Haurindo forças, acatemos sem revolta aquilo que a Vida nos oferece, trazendo paz na consciência e entendimento no coração.

    O mundo atual prescinde de quantos se transformam em ascetas e eremitas de qualquer condição.

    Até a penalogia moderna procura imprimir utilidade às horas dos presidiários, valorizando-lhes a reeducação em colônias agrículas e em outras organizações coletivas, à busca de regeneração moral e social.

    E a própria psiquiatria, presentemente, institui a laborterapia para que os enfermos da alma se recuperem, pela atividade edificante.

    Para o espírita, portanto, a Vida e o Universo surgem ajustados à lógica e esclarecidos na verdade.

    Apelemos para os recursos da prece, a fim de que sejamos sustentados em nosso próprios deveres, reconhecendo, porém, que Deus não é vendedor de graças ou doador de obséquios, em regime de exceção, e sim o Criador Incriado, perfeito em todos os seus atributos de justiça e de amor.


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