Qual a Eficácia da Prece?

    A resposta a essa pergunta vai depender da posição de cada um em diversas questões relativas a Deus, sobretudo no que diz respeito à crença na sua existência e na interpretação dos atributos da divindade, variando então dos ateus, que não acreditam em Deus e, por conseguinte, nenhum valor dão à prece, passando pelos agnósticos, que reputam o absoluto como inacessível ou incognoscível ao espírito humano, para chegar aos teístas, que se dividem nos crentes irracionais e racionais, aqueles confiando cegamente até em milagres e os últimos fazendo toda crença passar pelo crivo da razão, como ocorre com o espírita.

    Com quem estaria a razão?

    Allan Kardec, através de interessante matéria intitulada Considerações sobre a prece no Espiritismo (publicada na Revista Espírita do mês janeiro de 1866), afirma que a questão da prece foi de há muito discutida, para que seja inútil aqui repetir o que se sabe a respeito. Se o Espiritismo proclama a sua utilidade, não é por espírito de sistema, mas porque a observação permitiu constatar a sua eficácia e o modo de ação. Desde que, pelas leis dos fluidos, compreendemos o poder do pensamento, também compreendemos o da prece, que é, também, um pensamento dirigido para um fim determinado."

    Mas, ainda assim poderíamos indagar se a prece é necessária, na medida em que muitas pessoas que não fazem nenhum tipo de prece, seja de louvor, de pedido ou de agradecimento, parecem permanentemente protegidas, enquanto que outras, que vivem rezando o tempo todo em templos, igrejas, casas e até nas ruas, enfrentam enormes dificuldades e aparentam que foram abandonadas pelo mais alto.

    Na opinião de Kardec, não há dúvida de que a prece é "uma necessidade universal, independente das seitas e das nacionalidades”, porquanto, depois da prece, se a pessoa está fraca, sente-se mais forte e se está triste, mostra-se mais consolada, de forma que privá-la da prece seria tirar-lhe o “mais poderoso suporte moral na adversidade”.

    Isto acontece porque o homem, através da prece, eleva sua alma e entra em comunhão com Deus, identifica-se com o mundo extra-físico e se desmaterializa, obtendo uma condição essencial para sua felicidade futura, ao passo que, “sem prece, seus pensamentos ficam na terra, ligam-se mais e mais às coisas materiais. Daí um atraso no seu adiantamento”. Acrescentando que é um grave erro acreditar que a prece tem apenas e unicamente uma idéia de pedido, o mestre ensina que o "respeito da Divindade é um ato de adoração, de.humildade e de submissão, ao qual não se pode recusar, sem desconhecer o poder e a bondade do Criador”.

    Não obstante essas ponderações de Allan Kardec; muitos espíritas pregam um Espiritismo sem prece, aos quais ele responde afirmando que o "Espiritismo deve as numerosas simpatias que encontra às aspirações do coração, e nas quais as consolações que se obtém na prece entram com larga parte. Uma seita que se fundasse na negação da prece, privar-se-ia do principal elemento de sucesso, a simpatia geral, porque, em vez de a elevar, rebaixá-la-ia. Se o Espiritismo deve ganhar em influência, é aumentando a soma de satisfações morais que proporciona. Que os que, a todo preço, querem o novo no Espiritismo, para ligar o seu nome a uma bandeira, esforcem‑se para dar mais que ele. Mas não é dando menos que o suplantarão. A, árvore despojada de seus frutos saborosos e nutritivos será sempre menos atraente que a que deles está carregada. É em virtude do mesmo princípio que sempre temos dito aos adversários do Espiritismo: o único meio de o matar é dar algo de melhor, mais dor'>consolador, que explique mais e mais satisfaça. É o que ninguém ainda fez”.Sendo assim, a “rejeição da prece, por parte de alguns crentes nas manifestações espíritas”, deve ser considerada como uma opinião isolada, que pode ligar algumas individualidades, mas que jamais ligará a maioria. Seria erro imputar tal doutrina ao Espiritismo, desde que ele ensina positivamente o contrário."

    Em outra passagem, Kardec aborda a polêmica reinante` em torno da prece nas reuniões espíritas, explicando que ela se destina a uma predisposição "ao recolhimento, à seriedade, condição indispensável como se sabe, para as comunicações sérias", mas isso não significa que "essas reuniões sejam transformadas em assembléias religiosas", pois "o sentimento religioso não é sinônimo de profissionalismo religioso; deve-se mesmo evitar o que poderia dar às reuniões esse último caráter."

    Por tal razão, o dor'>codificador desaprovava constantemente "as preces e os símbolos litúrgicos", porque não podemos jamais "esquecer que o Espiritismo deve tender à aproximação das diversas comunhões" porquanto não é raro ver nas reuniões espíritas sérias a confraternização de representantes de diferentes cultos, motivo pelo qual "ninguém deve arrogar-se a supremacia. Que cada um em particular ore como entender; é um direito de cons‑ mas numa assembléia fundada sobre o princípio da caridade, devem abster-se de tudo o que pudesse ferir susceptibilidades e tender a manter um antagonismo que ao contrário, é preciso esforçar-se par o fazer desaparecer. Preces especiais no Espiritismo não constituem um culto distinto, desde que não sejam impostas e cada um seja livre de dizer as que lhe convém. Mas elas têm a vantagem de servir para todos e não chocar ninguém."

    Por outro lado é importante não nos esquecermos dos Espíritos em nossas vibrações mentais, pois para eles a "prece é uma identificação de pensamentos, um testemunho de simpatia. Repeli-la é repelir a lembrança dos seres que nos são caros, porque essa lembrança simpática e benevolente é, por si mesma, uma prece. Aliás, sabe-se que os que sofrem a reclamam com instância, como um alívio à suas penas. Se a pedem, então é que dela necessitam. Recusá-la é recusar um copo dágua ao infeliz que está com sede."

    Diante do exposto, parece evidente que a discussão acerca da eficácia ou ineficácia da prece tem sua raiz no desconhecimento da sua real natureza, pois ficou claro que a prece feita com recolhimento e sem ritual ou liturgia é um poderoso instrumento de elevação espiritual, possibilitando que a pessoa se aproxime de Deus, alinhe-se com o plano superior e progrida moralmente, sem contar que, quando ela é destinada aos semelhantes - encarnados ou desencarnados, amigos ou inimigos - será sempre uma saudável manifestação de simpatia, amizade e até de amor fraterno.


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