
Médiuns Enganadores, por Orson Carrara
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Ainda não me encontro bastante desapegado desse mundo para que
não me sentisse tentado a voltar a elle, no dia que assignalou o meu
desprendimento da carcassa de ossos.
Se o vinte e sete de outubro marcou o meu ingresso no reino das sombras, que é a
vida dahi, o cinco de dezembro representou a minha volta ao paíz de claridades
benditas, cujas portas de ouro são escancaradas pelas mãos poderosas da morte.
Nessa noite, o ambiente no cemitério de São João Baptista parecia suffocante.
Havia um que de mysterios, entre as catacumbas silenciosas, que me enervava,
apezar da ausência dos nervos tangíveis no meu corpo estranho de espírito.
Todavia, toquei as flores caridosas que a Saudade me levara, piedosa e
compungidamente. O seu aroma penetrava o meu coração como um consolo brando,
conduzindo-me, num retrospecto maravilhoso, ás minhas affeições commovidas, que
haviam ficado á distancia.
E foi entregue a essas cogitações, a que são levados os mortos quando penetram o
mundo dos vivos, que vi, acocorado sobre a terra, um dos companheiros que me
ficavam próximos ao “bungalow” subterrâneo com que fui mimoseado na terra
carioca.
— O senhor é o dono desses ossos que estão por ahi apodrecendo? interpellou-me.
— Sim, e a que vem a sua pergunta?
— Ora, é que me lembro do dia de sua chegada ao seu palacete subterraneo.
Recordo-me bem, apezar de sahir pouco dessa toca para onde fui relegado ha mais
de trinta annos... O senhor se lembra? A urna funerária, portadora dos seus
despojos, sahiu solemnemente da Academia de Lettras, altas personalidades da
política dominante se fizeram representar nas suas exequias e ouvi sentidos
panegyricos pronunciados em sua homenagem. Muito trabalho tiveram as machinas
photographicas na camaradagem dos homens de imprensa e tudo fazia sobresahir a
imponência do seu nome illustre. Procurei aproximar-me de si e notei que as suas
mãos, que tanto haviam acariciado o espadim acadêmico, estavam inermes e que os
seus miolos, que tanto haviam vibrado, tentando aprofundar os problemas humanos,
estavam reduzidos a um punhado de massa informe, onde apenas os vermes
encontrariam algo de útil. Entretanto, embora as homenagens, as honrarias, a
celebridade, o senhor veiu humildemente repousar entre as tíbias e os humeros
daquelles que o antecederam na jornada da Morte. Lembra-se o senhor de tudo
isso?
— Não me lembro bem... Tinha o meu espírito perturbado pelas dores e emoções
successivas.
— Pois eu me lembro de tudo. Daqui, quasi nunca me afasto, como um olho de
Argos, avivando a memória dos meus visinhos. O senhor conhece as cryptas de
Palermo?
— Não.
— Pois, nessa cidade, os monges, um dia, conjugando a piedade com o interesse,
inventaram um cemitério bizarro. Os mortos eram mumificados e não baixavam á
sepultura. Proseguiam de pé a sua jornada de silêncio e de mudez espantosa.
Milhares de esqueletos ali ficaram, em marcha, vestidos ao seu tempo, segundo os
seus gostos e opiniões. Muito rumor causou essa parada de caveiras e de canellas,
até que um dia um inspector da hygiene, visitando essa casa de sombras da vida e
enojado com a presença dos ratos que roiam displicentemente as costellas dos
trespassados ricos e illustres que se davam ao gosto de comprar alli um logar de
descanso, mandou cerrar-lhe as portas pelo ministro Crispi, em 1888. Ora, bem:
eu sou uma espécie dos defuntos de Palermo. Aqui estou sempre de pé, apezar dos
meus ossos estarem dissolvidos na terra, onde se encontraram com os ossos dos
que foram meus inimigos.
— A vida é assim, disse-lhe eu; — mas, porque se dá o amigo a essa inglória
tarefa na solidão em que se martyrisa? Não teria vindo do orbe com bastante fé,
ou com alguma credencial que o recommendasse a este mundo cujas fileiras agora
integramos?
— Credenciaes? Trouxe muitas. Além da honorabilidade de velho político do Rio de
Janeiro, trazia as insígnias da minha fé catholica, apostolica romana. Morri com
todos os sacramentos da egreja; porém, apezar das palavras sacramentaes, da
lithurgia e das felicitações dos hyssopes, não encontrei viva alma que me
buscasse para o caminho do Céo, ou mesmo do Inferno. Na minha condição de
defunto incomprehendido, procurei os templos catholicos, que certamente estavam
na obrigação de me esclarecer. Comtudo, depressa me convenci da inutilidade do
meu esforço. As egrejas estão cheias de mystificações. Se Jesus voltasse agora
ao mundo, não poderia tomar um átomo de tempo pregando as virtudes christãs, na
base luminosa da humildade. Teria de tomar, incontinenti, ao regressar a este
mundo, um látego de fogo e trabalhar annos a fio no saneamento de sua casa. Os
vendilhões estão muito multiplicados e a época não comporta mais o Sermão da
Montanha. O que se faz necessário, no tempo actual, no tocante a esse problema,
é a creolina de que falava Guerra Junqueiro, nas suas blasphemias.
— Mas, o irmão está muito sceptico. E’ preciso esperança e crença...
— Esperança e crença? Não acredito que ellas salvem o mundo, com essa geração de
condemnados. Parece que maldições infinitas perseguem a moderna civilisação. Os
homens falam de fé e de religião, dentro do snobismo e da elegância da época. A
religião é para uso externo, perdendo-se o espírito nas materialidades do
século. As creaturas parecem muito satisfeitas sob a tutela estranha do diabo. O
nome de Deus, na actualidade, não deve ser evocado senão como máscara para que
os enigmas do demônio sejam resolvidos.
— Não estamos nós aqui, dentro da terra da Guanabara, paraíso dos turistas,
cidade maravilhosa? Percorra o senhor, ainda depois de morto, as grandes
avenidas, as artérias gigantescas da capital e verá as creanças famintas, as
mãos enauseantes dos leprosos, os rostos desfigurados e pallidos das mães
soffredoras, emquanto o governo remodela os theatros, incentiva as orgias
carnavalescas e multiplica regalos e distrações. Vá ver como o câncer devora os
corpos enfermos no hospital de Gambôa; ande pelos morros, para onde fugiu a
miséria e o infortúnio; visite os hospício e leprosários. Há de se convencer da
inutilidade de todo o serviço em favor da esperança e da crença. Em matéria de
religião tentei materialisar-se e corra aos prédios elegantes e aos bungalows
adoráveis de Copacabana e do Leblon, suba a Petropolis e grite a verdade. O seu
fantasma seria corrido pedradas. Todos os homens sabem que hão de chocalhar os
ossos, como nós, algum dia mas, um vinho diabólico envenenou no berço essa
geração de infelizes e de descrentes.
— Porque o amigo não tenta o Espiritismo? Essa doutrina representa hoje toda
nossa esperança.
— Já o fiz. E’ verdade que não compareci em uma reunião de sabedores da
doutrina, conhecedores do terreno que perquiriam, mas estive em uma assembléa de
adeptos e procurei falar-lhes dos grandes problemas existência das almas.
Exprobrei os meus erros do passado, penitenciando-me das minhas culpas para
escarmenta-los; mostrei-lhe as vantagens da pratica do bem, como base única para
encontrarmos a senda da felicidade, relatando-lhes a verdade terrível, na qual
me achei um dia, com os ossos confundidos com os ossos dos miseráveis. Todavia,
um dos componentes da reunião interpellou-me a respeito das suas tricas
domesticas, accrescentando uma pergunta quanto á marcha dos seus negócios.
Desilludi- me.
— Não tentarei coisa alguma. Desde que temos vida depois da morte, prefiro
esperar a hora do Juízo Final, hora essa em que deverei buscar um outro mundo,
porque, com respeito á Terra, não quero chafurdar-me na sua lama. Por estranho
paradoxo, vivo depois da morte, serei adepto da congregação dos descrentes...
— Então, nada o convence?
— Nada. Ficarei aqui até á consummação dos évos, se a mão do Diabo não se
lembrar de me arrancar dessa toca de ossos moídos e cinzas asquerosas. E, quanto
ao senhor, não procure afastar-me dessa misanthropia. Continúe gritando para o
mundo que lhe guarda os despojos. Eu não o farei.
E o singular personagem recolheu-se á escuridão do seu canto immundo, emquanto
pesava no meu espírito a certeza dolorosa da existência dessas almas vasias e
incomprehendidas, na parada eterna dos túmulos silenciosos, para onde os vivos
levam de vez em quando as flores perfumadas da sua saudade e da sua affeição.
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