A Bicicleta e o Ciclista

    “O Espírito independe da matéria, ou é apenas uma propriedade desta,
    como as cores o são da luz e o som o é do ar?”
    “São distintos uma do outro; mas, a união do Espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria”.
    (“O Livro dos Espíritos”- Questão nº 25.)

    Não há controvérsia em expressões assim:
    — Fulano tem espírito — é inteligente.
    — Beltrano é espirituoso — possui senso de humor.
    — Ciclano é espiritualizado.
    — Cultiva valores morais.
    A dificuldade surge quando empregamos a palavra espiritualista para designar pessoas que admitem a existência da Alma, a individualidade eterna que sustenta o corpo físico e o situa como um ser pensante.
    Para muitos trata-se de mera fantasia religiosa, sem base científica.
    Concebem que capacidade de pensar é mero resultado da organização e do funciona­mento de células cerebrais, que produzem o pensamento, assim como o fígado produz bile ou as glândulas de secreção interna produzem os hormônios.
    Afirma jocosamente o patologista:
    — Dissequei centenas de cérebros. Jamais encontrei o Espírito.
    Interessante frase de efeito que não diz nada.
    Porventura teria ele desvendado misterioso mecanismo a gerar o pensamento no interior das células?
    Alguma pesquisa teria surpreendido idéias sendo produzi­das pelos neurônios, da mesma forma que o pâncreas secreta a insulina?
    A matéria não pensa.
    Situemos, a título de ilustração, algo bem simples:
    A bicicleta.
    Trata-se de um veículo de transporte muito eficiente que, para movimentar-se, não pres­cinde da força motriz gerada pelo ciclista.
    O corpo é a bicicleta que o Espírito usa para a jornada humana.
    A bicicleta sem o ciclista é um objeto inanimado.
    O corpo sem o Espírito é mero aglomerado de células em desagregação.
    A união do Espírito com o corpo intelectualizou a matéria, transformando o ancestral símio antropóide num ser pensante, da mesma forma que a presença do ciclista torna a bicicleta um veículo andante.
    Em defesa da tese materialista, que nega a individualidade espiritual que anima o ser humano, fala-se em paralelismo psicofisiológico.
    Trocando em miúdos:
    O homem é um produto de seu próprio cérebro.
    Por isso, o que lhe afeta os miolos repercute em sua atividade motora, sensorial, intelectual, mental...
    Proclama o materialista:
    — A prova de que a inteligência independe da suposta presença do Espírito está no fato de que se ocorrer um problema qual­quer com o tecido cerebral teremos dificuldade para exercitar as funções intelectivas e fisiológicas.
    Raciocínio simplista.
    Sendo o cérebro o instrumento de sua manifestação no plano material, obviamente o Espírito estará na dependência dele.
    O ser imortal pode ser muito inteligente, muito culto, mas se a caixa craniana apresentar grave disfunção teremos um deficiente mental.
    Algo semelhante a um ciclista que ficará impossibilitado de transportar-se em sua bicicleta se um pneu furar ou romper-se a corrente que traciona as rodas.
    Um exemplo mais ilustrativo:
    Quando falo ao telefone, se­ria o cúmulo da ingenuidade meu interlocutor imaginar que conversa com meu aparelho. O telefone é apenas o instrumento de nosso contato. Se apresentar defeito a comunicação ficará prejudicada.
    Devemos atentar, ainda, para outro aspecto que liquida a tese materialista.
    Há doentes mentais submeti­dos aos mais sofisticados exames que não revelam nenhuma disfunção orgânica, nem mesmo nos circuitos cerebrais. Enigmas para os médicos, que se limitam a prescrever lhes tranqüilizantes.
    A Doutrina Espírita explica que o problema é decorrente de uma obsessão. O paciente tem comprometida sua integridade mental pela influência de inimigos espirituais.
    O tratamento em hospitais psiquiátricos espíritas — passe magnético, água fluída, sessões de obsessão'>desobsessão, reuniões evangélicas — opera prodígios, afastando os obsessores e promovendo a cura do paciente.
    Isso não ocorre apenas com problemas mentais.
    Há casos em que a ação do obsessor provoca males físicos que desafiam a Medicina.
    Durante meses um homem sofreu dores intensas nas pernas.
    Os médicos não conseguiam um diagnóstico. Exames clínicos e laboratoriais nada revelavam.
    O paciente irritava-se quando lhe diziam que se tratava de um problema psicológico. Esbravejava:
    — Dor não tem psicologia!
    Mesmo assim, em desespero, submeteu-se à Psicanálise.
    Resultado nulo.
    Saturado de tanto sofrer pedia que lhe amputassem as pernas. Um amigo o convenceu a procurar o Centro Espírita.
    Lá explicaram-lhe que estava sendo assediado por um Espírito que, a pretexto de vingar-se de passadas ofensas, impunha-lhe aquela tortura.
    Ficou sabendo que em vida passada assassinara aquele que hoje o martirizava. Quebrara suas pernas, abandonando-o em região deserta, atormentado por dores intensas.
    Durante alguns meses submeteu-se ao tratamento com passes magnéticos e água fluída. Recebeu orientações quanto ao estudo, a reforma íntima, a prática do bem...
    Seu empenho, aliado às reuniões de obsessão'>desobsessão e à interferência de benfeitores do além, modificaram as disposições de seu perseguidor. Sensibilizado, disposto também à renovação, ele se afastou.
    Em breve, como por encanto, as dores desapareceram.
    NO livro “O Que é a Morte” Carlos Imbassahy vai mais longe:
    “Há um fato desconcertante para a Fisiologia e sobretudo para os fisiologistas, no caso das lesões cerebrais, isto é, quando há operações em partes essenciais do cérebro sem que a consciência e a inteligência fossem suprimidas ou mesmo alteradas.”
    Dentre inúmeras citações que ilustram sua afirmação, reporta-se a um suboficial da guarnição de Antuérpia, na Primeira Guerra Mundial, que durante anos sofreu persistente dor de cabeça. Não obstante, cumpria normalmente suas obrigações.
    Morto repentinamente, foi submetido à autópsia.
    O patologista constatou, surpreso, que ele tivera um tumor na cabeça.
    O cérebro estava reduzido a uma pasta purulenta.
    Incrível que tenha conservado a sanidade mental e motora, sobrevivendo à desintegração da massa encefálica!
    Comenta Imbassahy:
    “Em suma, o que a Fisiologia descobriu é que, normalmente, comumente, o cérebro é necessário à manifestação do Espírito. O estudo de determinados fatos fisiológicos, psíquicos ou metapsíquicos, provam, entretanto, que a dependência não é constante, absoluta. O Espírito faz-nos, por vezes, o efeito de certos mágicos a quem se amarra ou acorrenta com laços e cadeias irremovíveis; ei-los, porém, que se desembaraçam, não se sabe como, e se apresentam em cena, sorridentes, completamente livres. O mecanismo cerebral é inútil como prova a favor das doutrinas materialistas.”
    Mais cedo ou mais tarde a Ciência admitirá o fundamental:
    O homo sapiens que há muito domina a Terra é apenas uma manifestação do Espírito eterno que intelectualiza a matéria em favor de suas experiências evolutivas nos domínios da carne.
    Sem o binômio corpo-espírito jamais se operaria o desenvolvimento mental que retirou o Homem do fundo das cavernas para elevá-lo às culminâncias da civilização tecnológica.


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