Não Julges

    Não julgues o companheiro
    Por desumano e insensato
    Porque te não busque o trato,
    Nas rosas de teu jardim.
    Entende, ampara primeiro...
    Não digas, em contra-senso:
    – “Decerto, isso é como eu penso,
    Deve aquilo ser assim...”.

    Muita vez, quem vai ausente,
    Do conforto que te afaga,
    Mostra o peito aberto em chaga,
    A golpes de provação.
    E enquanto o céu te consente
    A paz das horas seguras,
    O pobre irmão que censuras
    Traz fogo no coração.

    De outras vezes, quem se isola,
    Longe de falas e festas,
    Não tem o mal que lhe emprestas,
    Nem delibera fugir.
    Apenas vive na escola
    Do dever e da constância,
    E se respira, a distância,
    É para melhor servir.

    Não vasculhes lodo e jaça,
    Mirando a alheia conduta.
    Quase sempre há dor e luta
    Onde vês passo infiel.
    Frequentemente, na taça
    Que aparenta vinho oculto,
    O pranto cresce de vulto,
    Tisnado de angústia e fel.

    Se ensinas a caridade,
    Ouve Jesus que nos chama!
    Não guardes vinagre e lama
    Sob a que te conduz.
    Acende a luz da bondade,
    Porquanto também um dia
    Mendigarás simpatia
    Nas sombras da própria cruz!


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