O Futuro Genro

    A notícia caíra com o fragor de um raio no espírito de João Pacheco.

    Dissera-lhe alguém que Wilson Pedroso, o moço que lhe pedira a filha em casamento, fora visto, por duas vezes, nas ruas cariocas, abraçado à uma jovem pela qual parecia apaixonado.

    Lembrava-se de que o rapaz era espírita e de muitos amigos ouvira observações desfavoráveis.

    - “Espírita é livre pensador!” – Diziam alguns.

    - “Espiritismo é religião diferente da nossa”. – repetiam outros.

    Pacheco, tocado nos brios paternos, quis tirar tudo a limpo, antes que a filha se complicasse; por isso, imaginando possíveis discussões e reações, armou-se e desceu da cidade serrana em que moravam.

    Chegou cedo à Capital e informado sobre o ponto e hora exata em que o futuro genro vinha sendo visto, permaneceu de tocaia.

    No justo momento, Pedroso e a moça apareceram ao longe. Abraçado. Tão embevecidos que não conversavam.

    Colado um ao outro, penetraram num grande edifício e Pacheco, furioso, acompanhou-os até o saguão e ficou esperando.

    Depois de duas horas, que o pai exasperado passou a mentalizar imagens terríveis, o par abraçado surgiu de volta.

    O rapaz instalou a companheira carinhosamente numa poltrona e saiu como se fosse pedir contas de alguma cousa.

    Pacheco aproximou-se da jovem e dirigiu-lhe a palavra.

    A desconhecida, entretanto, não respondeu.

    O homem exasperou-se mais ainda. Sentia-se injuriado. Decerto, ela sabia quem ele era e insultava-o com desprezo.

    E quando o moço regressou, pôs-se a gritar acusações amargas, apontando-lhe o revólver.

    Contudo, logo após, profundamente desapontado, soube que Pedroso estava em companhia da própria irmã, cega e já bastante surda, que viera do interior para tratamento no Rio.


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