O Passado, Nós e a Felicidade

    Admitir que o Espírito, depois de realmente purificado, pudesse ter a sua felicidade turbada pela recordação de faltas cometidas quando ainda imperfeito, seria, a nosso ver, quando não uma arbitrariedade, pelo menos uma inconseqüência.

    Imaginemos, por comparação necessária, um homem de negócios que, depois de haver assumido elevados compromissos, de ordem financeira, conseguisse, com esforço no tempo, resgatar essas responsabilidades e, um dia, em momento de lazer, reexaminasse os títulos já perfeitamente quitados.

    O reexame dos remotos problemas ser-lhe-ia motivo para alegria ou tristeza?

    Naturalmente aquele homem, feliz por haver pago todos os seus débitos, deixaria que inefável prazer invadisse os escaninhos de sua alma, por gozar, agora, da doce ventura que desfrutam quantos se quitaram perante os credores.

    Com relação aos débitos morais é também assim: quando a Alma adquire a perfeição, situações e problemas, seus e de outrem, são observados sob um prisma diferente - muito superior, muito natural.

    Há sempre um entendimento maior, no que diz respeito às vicissitudes experimentadas.

    A compreensão de que o Espírito, para alcançar a perfeição, tem que, invariavelmente, viver múltiplos estágios evolutivos e defrontar-se com as mais diversas experimentações, é motivo para que o pretérito, delituoso ou simplesmente vacilante, lhe não atormente os dias venturosos.

    Experiências negativas de ontem e provas difíceis pelas quais passará amanhã, com o objetivo do aprimoramento espiritual, não influem desagradavelmente na felicidade da Alma realmente evoluída, que se redimiu e equilibrou no conhecimento e na virtude.

    As quedas do passado - assim o entendem os que já atingiram segura posição evolutiva representaram a conseqüência, a que não puderam fugir, do próprio atraso.

    As provas, mesmo penosas, que ainda venham a se apresentar em seu caminho, ser-lhe-ão valiosos testes na seqüência do aprendizado.

    O tema é delicado, sem dúvida. E Allan Kardec, o insigne Codificador, meditando sobre ele, formulou a questão n. 978, em, «O Livro dos Espíritos»: A lembrança das faltas que a alma, quando imperfeita, tenha cometido, não lhe turba a felicidade, mesmo depois de se haver purificado?

    Os Celestes Emissários responderam: Não, porque resgatou suas faltas e saiu vitoriosa das provas a que se submetera para esse fim.

    Allan Kardec comenta, com sabedoria, a situação das almas que obtiveram, nos embates evolutivos, seus primeiros triunfos. Eis como o eminente missionário esclarece o assunto:

    “Goza da felicidade a alma que chegou a um certo grau de pureza. Domina-a um sentimento de grata satisfação. Sente-se feliz em tudo o que vê, por tudo o que a cerca. Levanta-se lhe um véu que encobria os mistérios e as maravilhas da Criação e as perfeições divinas em todo o esplendor lhe aparecem.

    Maravilhosos conceitos - belos na forma e sublimes no conteúdo - a demonstrarem, sua incomparável simplicidade, a inspiração mestre lionês no expor assunto de tamanha relevância!

    Quando se diz, aliás com freqüência nas conversações entre espíritas, que a felicidade não é deste mundo, enuncia-se indiscutível preceito doutrinário.

    Dada a quase inexistência de criaturas realmente perfeitas - único estado que dá completa felicidade ao Espírito! -, a simples lembrança de infrações às leis de Amor e Justiça faz descer sobre o coração humano, em certos instantes, o véu da tristeza.

    Em tese'>síntese: só as Almas autenticamente perfeitas são felizes e não se entristecem com a lembrança das faltas praticadas quando imperfeitas; Almas ainda maculadas, para usar a própria expressão de “O Livro dos Espíritos” choram erros cometidos, desalentam-se ante perspectiva de provas pelas quais tenham passar, por impositivo reencarnatório.


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