A Cruz e a Dignidade

    Em uma passagem evangélica, Jesus disse que quem quisesse ir após ele, deveria tomar sua cruz, renunciar a si mesmo e segui-lO.

    Esse convite sinaliza que o processo de sublimação do próprio ser é trabalhoso.

    A conquista da dignidade espiritual pressupõe o abandono de antigos vícios e a conquista de variadas virtudes.

    Também implica a quitação de velhas contas, oriundas de crimes cometidos contra as leis cósmicas.

    O Espírito em evolução precisa aprender a renunciar a seus hábitos tristes e a suas concepções equivocadas de vida, para se tornar puro e fraterno.

    A vida lhe propicia todas as condições para que se erga rumo ao seu destino glorioso.

    As penosas injunções da existência material são uma bênção.

    No lento processo de vivenciar e se desiludir das coisas do mundo, a alma passa a prestar atenção no que realmente importa.

    Compreende que a aparência física é muito transitória.

    Que o dinheiro muda rapidamente de mãos.

    Que a saúde oscila e se fragiliza com o passar dos anos.

    Que os amores mais caros vão para longe ou desencarnam.

    Lentamente, ela compreende a transitoriedade de tudo o que a rodeia.

    E entende que o primordial reside em seu íntimo.

    Que a paz da consciência, fruto de um viver digno, é o que de bom a acompanhará para sempre.

    Esse processo é lento e doloroso.

    Ele representa a cruz a ser levada.

    Ocorre que, em um mundo amplamente materializado como a Terra, todos sofrem.

    Não há ninguém que deixe de adoecer ou de morrer.

    Todos passam pela experiência da desencarnação de seres amados.

    Certamente não está a seguir o Cristo quem se revolta por tudo e por nada.

    Conclui-se que não basta levar a própria cruz.

    É preciso levá-la com dignidade, talvez até com alguma elegância.

    Há quem espalhe pelo mundo o rancor por suas dores.

    Com suas reclamações, inferniza a vida dos outros.

    Acha que todos têm o dever de ajudá-lo e exige que o façam.

    Porque enfrenta dificuldades, trata mal o semelhante.

    Justifica seu comportamento infeliz com as dores que vivencia.

    Entretanto, todos sofrem, em maior ou menor grau.

    Apenas alguns o fazem com mais elegância.

    Têm o cuidado de não infelicitar o próximo e praticam a caridade da paz.

    Entendem que a cruz é deles, não da coletividade.

    Quando necessário e possível, buscam e aceitam auxílio.

    Mas sem imposições, reclamações ou rebeldia.

    Assim, reflita que as injunções penosas de sua vida têm um propósito superior.

    Elas se destinam a promover sua pacificação interior e efetivamente o fazem, se bem suportadas.

    Mas de pouco adiantarão se você se desequilibrar e se tornar causa de angústia na vida do semelhante.

    Para que a experiência seja válida, é preciso vivê-la com dignidade.


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