Deus e Nós

    Sebastião Lobo, estimado motorista, depois de afeiçoar-se ao Evangelho, fizera-se mais consagrado à oração.

    Clarividente, encontrava grande consolo na palavra de Eusébio, o instrutor espiritual que lhe dedicava incessante carinho.

    Entretanto, apesar de todos os votos que fazia, estava sempre a braços com dificuldades morais de vulto.

    Tomando o automóvel, pela manhã, certa feita afirmou:

    - Deus está comigo. Deus está do meu lado. Deus me ajudará. Deus me dará suas mãos.

    Mas, justamente nesse dia, Sebastião rixou com alguns colegas, perdeu a calma, abusou da velocidade, foi multado, desentendeu-se fortemente com o posto fiscal.

    À noite, no instante das orações, sentia-se envergonhado.

    Como de outras vezes, Eusébio surgiu-lhe aos olhos e argumentou, convincente. O pupilo errara com agravantes. Conhecia as próprias obrigações. Cabia-lhe controlar-se, asserenar-se, pois que espírita algum pode, em boa consciência, ignorar o dever da humildade.

    Sebastião, contudo, insatisfeito consigo mesmo, disse em voz alta:

    - Meu amigo, meu irmão, como proceder? Saí de casa orando, buscando vigiar ... E muitas vezes repeti hoje: “Deus está do meu lado. Deus me ajudará. Deus me dará suas mãos.”

    - Sim, sim – concordou Eusébio -, tudo está certo, mas não se esqueça de que nós também precisamos estar com Deus e entregar as mãos a Deus. Está bem?

    Sebastião gaguejou, gaguejou e acabou conformando-se:

    - Está bem.

    - Está bem – disse Eusébio -, amanhã vamos começar tudo de novo.


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