Um Desastre

    Duarte Nunes enriquecera. Duas grandes farmácias, muito bem dirigidas, eram para ele duas galinhas de ovos de ouro. Dono do próprio tempo, não sabia usá-lo da maneira mais nobre e, por isso, estimava nas grandes emoções suas grandes fugas.

    Corridas de cavalos, corridas de automóveis, concursos de lanchas...

    Entusiasta de todas os esportes. Gastador renitente.

    Apesar disso, era bom esposo e bom pai. De vez em vez, levava os filhinhos, Marilene e Murilo, às brigas de galos. O belo casal de garotos, porém, não gostava. Marilene voltava o rosto para não ver, e Murilo, forte petiz de quatro anos, chorava desapontado.

    – Poltrão! – dizia, o pai, com adocicada ironia. E colocava os dois no carro para longo passeio. A esposa, muitas vezes presente, rogava aflita: “Nunes, mais devagar.” Ele, porém, sorria, sarcástico, e dava largas ao freio. Sessenta, oitenta quilômetros...

    Noutras circunstâncias, era Elmo Bruno, o amigo inseparável, que advertia, quando o carro de luxo parecia comer o chão :

    – Não corra assim. tanto... Olhe os pedestres!

    – Que tenho eu lá com isso?

    E Bruno explicava :

    – Há pessoas distraídas, e crianças inconscientes. Nem sempre conseguem, de pronto, ver os sinais...

    Duarte encerrava o capítulo, acrescentando :

    – Rodas foram feitas para rodar. E depressa.

    De outras vezes, era o próprio pai dele a aconselhá-lo, enquanto o veículo parecia voar :

    – Meu filho, é preciso prudência... O volante pede calma... Penso que, além dos quarenta quilômetros, tudo é caminho para desastre...

    – Frioleiras, papai – respondia Nunes, bem humorado, agravando o problema.

    Sempre que exortado, corria mais.

    – Meninos de apartamento, aves engaioladas!

    – dizia a mamãe Duarte Nunes, abraçando os netos.

    – Então – disse a pai, sorrindo –, preferem vovó?

    – Sim, sim...

    Decorridos minutos, saem todos na manhã domingueira.

    Dona Branca desce com a nora, amparando as crianças, ao pé da própria casa a pleno sol de Ipanema e declara :

    – Nossos pássaros prisioneiros querem hoje a largueza da praia. Vamos respirar... – Riram-se todos.

    E o auto, conduzindo Nunca e Elmo, saiu em disparada,.

    Mais tarde, Petrópolis.

    Amigos improvisavam corridas de bicicletas.

    Bandeirinhas. Anotações. Relógios era massa. Homens magros, pedalando, ansiosos e, por fim, o aguapé em hotel serrano, sob árvore" farfalhudas.

    Ao virar da tarde, o regresso.

    Todo o Rio inda vibra de sol.

    – Porque não buscar, primeiro, a cerveja pura e gelada, em Copacabana? – perguntou Nunes, contente.

    O carro devora o asfalto.

    – Devagar, devagar... – pede o amigo.

    Depois da cerveja, o retorno a casa. Nunes inicia a marcha, como quem decola.

    – Devagar, devagar – roga o companheiro.

    Ele ri. Desatende. A poucos minutos, ambos vêem um pequeno em maiô. Está só. Agita-se. E corre de través procurando o outro lado. Nunes tenta frear, mas é tarde. Atropela o garoto que tomba qual pluma ao vento.

    Populares gritando. O menino estendido na rua é um pássaro que agoniza.

    Sangue. Muito sangue. Nunes aflige-se.Elmo volta e vê. Ergue a criança, espantado, e caminha no rumo dele.

    – Seja quem for – grita Nunes –, leve à nossa farmácia... Toda a despesa gratuita...

    Todavia, o amigo, boquiaberto, apresenta-lhe a menino morto e exclama :

    – Munes, este menino é...

    – É quem? Diga logo – falou Mune, impaciente.

    Mas não precisou de maiores minúcias, porque Bruno, traumatizado, disse-lhe apenas :

    – É seu filho...


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