Dor e Felicidade

    Convido o leitor a um passeio pelos panoramas da vida humana: reprodução, liberdade, conservação, igualdade, adoração, destruição, trabalho, progresso... Percebe-se, com clareza, que constituem as leis que nos regem.

    Basta pensar. Algumas óbvias demais, como a reprodução, a conservação, o trabalho. Outras ainda se debatem em resistências colocadas pelos próprios seres humanos para serem cumpridas, como a igualdade, a liberdade, nem sempre respeitadas; outras nos assustam, como a destruição (inevitável em construções e situações temporárias, por exemplo). A adoração é interpretada por diferentes procedimentos e o progresso inevitável. Mas todas são leis que nos regulam a vida e visam trazer tranqüilidade e felicidade, apesar de ainda não inteiramente compreendidas.

    Se citarmos, então, a justiça, o amor, a perfeição moral (ainda que relativa), a caridade... Aí então vemos a distância que nos encontramos.

    Dessa imposição, não como castigo mas entendida como lei comum para todos, alguns instrumentos desenvolveram-se, justamente pela criatividade e originalidade da vida humana, pela lei de liberdade principalmente, trazendo-nos por exemplo a cultura desenvolvida através dos milênios de história, a música, as artes em geral, expressando inspiração e captação das fontes maiores que dirigem a sustentam a vida.

    Nessa luta, todavia, da convivência e das diferentes experiências (em todos os sentidos, inclusive racial, social, sexual, etc), surgiram a dor e a felicidade. Dor tanto física (das enfermidades, acidentes e deformidades físicas ou mentais) como morais (remorsos, arrependimentos, aflições, mágoas, etc), com seus conseqüentes desdobramentos. A felicidade também, por sua vez, tanto material (na aquisição de bens e no conforto que o dinheiro pode proporcionar) e moral (nas imensas e variadas satisfações que o dinheiro não pode comprar), igualmente com seus desdobramentos.

    Cabe-nos optar pela dor ou pela felicidade. Opção exclusiva de cada um.

    Experimentemos recordar o que sentimos quando asilamos inveja e ciúme, orgulho ferido, raiva, ódio e egoísmo no coração: imediato e constante mal estar, sensação desagradável que destrói a felicidade, tira-nos o sono, intranqüiliza-nos.

    Ao contrário, experimentemos recordar as sensações advindas da admiração real e sincera por alguém; do sentimento de gratidão por qualquer pessoa que tenha nos proporcionado algo bom; do desejo de ajudar, etc. É imediato bem estar, felicidade interior, sensação de dignidade e auto-estima abundante.

    O Natal desdobra todas essas reflexões outra vez. Em dezembro, deixamo-nos envolver por esta euforia da solidariedade; em janeiro voltamos à rotina da indiferença. O que tem o Natal de tão especial, apesar de trocarmos o aniversariante pelo Papai Noel?

    É que a simples lembrança do nascimento do Mestre e Senhor, do maior Amigo da Humanidade, sintonizam-nos com Sua Grandeza e presença amorosa entre nós.

    Apesar das agressões individuais ou coletivas, como o vergonhoso aumento pelos deputados nos próprios salários numa afronta aos graves problemas nacionais (não é preciso relacionar, não é mesmo?), sempre podemos optar pela tolerância, pela compreensão, pelo afeto, pelo perdão, como desejou Jesus de Nazaré...

    A opção cristã é pelo amor, apesar de tudo. É preciso prosseguir mesmo que tudo que você construiu em décadas seja destruído num instante, como afirmou Teresa de Calcutá. Afinal, o exemplo arrasta... Nenhuma dedicação para o bem será perdida...

    Por isso, desejando um Feliz Natal e um Ano Novo mais sereno para todos nós, permita-nos dizer: Escuta-nos, Senhor e Mestre: ajuda-nos a vencer a nós mesmos; orienta-nos a acertar os passos no caminho da retidão e da bondade; segura-nos as mãos para conseguirmos acender a luz da tolerância e da compreensão dentro do coração e clareia nosso caminho, Divino Amigo, para não nos perdermos tanto em tantas tolices... Nossa sofrida Humanidade debate-se em desafios enormes, frutos a maioria deles de nosso egoísmo pessoal e coletivo. Ajuda-nos, Jesus, a estamparmos no rosto a expressão da esperança e nos transformarmos também em mãos que ajudam, trabalham, cooperam e prosseguem confiantes na construção da felicidade para todos.


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