Mãe Querida

    Torno a ver, nos meus dias de criança,
    O teu regaço, a lamparina acesa,
    O pequeno lençol que trago na lembrança,
    A oração da manhã e o pão à mesa...

    Varro o chão, a fitar-te as mãos escravas,
    Afagando o fogão, de momento a momento...
    A roupa e o batedouro em que cantavas
    Para esquecer o próprio sofrimento...

    Depois, era o tinir da caçarola,
    Aumentando a despesa no armazém...
    Vestias-me de renda para a escola
    E nunca me lembrei de ofertar-te um vintém.

    Cresci... A mocidade me requesta,
    Ante a cidade de qualquer maneira...
    Parti... - eu era a rosa para a festa,
    Ficaste... - eras a rústica roseira.

    De tudo vi na estrada grande e nova,
    As flores do prazer, o brilho, a fama.
    A malícia dourada e os suplícios da prova
    Marcando a pranto e fel os passos de quem ama...

    Hoje, volto a buscar-te, mãe querida,
    Dá-me de tua paz sem ilusão,
    Guarda-me em ti, amor de minha vida,
    Alma querida de meu coração.


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