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- Que vínheis discutindo pelo caminho? – Indagou sereno, Jesus, aos amigos, que chegaram esfogueados e suarentos à casa de Simão, filhos de Jonas, o pescador, onde os aguardava.
Tomados de surpresa, os discípulos aturdidos entreolharam-se, sem coragem de responder.
Eles conviviam com o Mestre, mas não O conheciam; partilhavam as Suas idéias, porém não haviam penetrado na sua profunda lição; ouviam, deslumbrados, os anúncios do reino de Deus, e permitiam-se anelar pelos triunfos humanos.
Homens simples e toscos, comportavam-se, às vezes, como crianças desatentas em relação aos deveres, entregando-se a contendas inúteis e pelejas rudes por questões irrisórias...
Assim sempre eram admoestados carinhosamente, mas com energia pelo Amigo, que lhes trabalhava o amadurecimento espiritual.
A jornada que ali encerravam, havia sido traçada com segurança, significando-lhes o primeiro desafio a enfrentar, como preparação para os dias porvindouros.
O Mestre aguardava-os com a habitual generosidade, feita de misericórdia e de compaixão.
Amava-os com dúlcida ternura. Entregara-se-lhes com dedicação total, embora sabendo das suas dubiedades e dificuldades interiores. Por isso, convocara-os para o ministério, reconhecendo-lhes todos os problemas emocionais e debilidades morais. Alguns eram Espíritos nobres, que se emboscaram no corpo, que lhes amortecia a elevação, a fim de O seguirem, espalhando a Notícia...
As suas inexperiências facultavam aprendizagem mais segura para os testemunhos do futuro. Por tal razão, tateavam nas sombras dos labirintos da insegurança até encontrarem o caminho que iriam percorrer com invulgar grandeza de alma.
Não, porém, naqueles momentos iniciais.
Arrancados das fainas simples e repetitivas do cotidiano monótono, a súbita mudança não conseguiu alçá-los de imediato à altura correspondente.
Esse resultado se faria, somente, a pouco e pouco.
É sempre assim que se dá o amadurecimento moral, que faz do pigmeu um gigante e do ser simples, que a fornalha do sofrimento modela, um verdadeiro herói.
Aquele era o material humano disponível para a construção da Era do Espírito Imortal e se tornava necessário trabalhá-lo com carinho e firmeza.
A pergunta permaneceu no ar, sem resposta.
A princípio, sentiram-se constrangidos, embaraçados. Deram-se conta da pouca importância da questão do debate, mas constatavam novamente o poder de penetração do Mestre no insondável dos seus pensamentos e atos.
Por fim, vencendo o conflito, sem agastamento, responderam alguns:
- Vínhamos discutindo em torno de quem de nós era o maior, o mais amado, o de importância mais significativa.
“Todos reconhecemos que João é distinguido pelo vosso amor; Pedro é merecedor da mais expressiva confiança; Judas guarda as moedas e se encarrega do controle das nossas modestas finanças... E os demais? Que somos e que papel desempenhamos no grupo?
“Afinal, qual de nós é o maior?”
Certamente se sentiam contristados pela disputa, mas como houve-a, era justo serem honestos, libertando-se das dúvidas.
Jesus envolveu-os na luz da compaixão, e com a sabedoria habitual, respondeu-lhes:
- O grão de mostarda, menor e mais insignificante que qualquer outra semente, reverdece com o mesmo tom o solo abençoado pelo trigo vigoroso. A bolota do carvalho desenvolve a árvore grandiosa que nela jaz, assim como o pólen quase invisível de todas as flores se encarrega de transmitir beleza e perpetuar a espécie em outras plantas... Todos são importantes na paisagem terrestre.
“O grão de areia se anula ante outro para construir a praia imensa que recebe o carinhoso movimento das ondas arrebentando-se no seu leito reluzente.
“Tudo é importante diante de meu Pai, não pela grandeza, mas pelo significado de que cada coisa se reveste para a utilidade da vida.
“Entre os homens, o maior é sempre aquele que se esquece de si mesmo, tornando-se o melhor servidor, aquele que não se cansa de ajudar, que se encontra sempre disposto para cooperar e servir sem outra preocupação, qual não seja a de beneficiar... Quem se apaga para que outro brilhe, torna-se o combustível, sem o qual a luminosidade desaparece.
“Há uma grande importância em ser pequeno, graças a cuja contribuição se apresenta o conjunto grandioso.”
Fez um oportuno silêncio, a fim de ensejar aos amigos maior reflexão para que nunca mais se esquecessem do enunciado, e prosseguiu:
- Aquele que, dentre vós, desejar ser o maior, o mais importante, o mais amado, torne-se o melhor servidor, o mais atento amigo, sempre vigilante para ajudar e desculpar, porque esse, sim, fará falta, será notado quando ausente, se tornará alicerce para a construção do edifício do Bem.
No silêncio que se fez natural, os viajantes dispersaram-se pelas diversas peças da casa de Simão, enquanto lá fora, o Sol de verão dardejava os seus raios de fogo sobre a terra que se abrasava.

* Lucas 9-46.
Nota da Autora espiritual


Por: Amélia Rodrigues, Médium: Divaldo Pereira Franco


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